O fascínio do ouro

 
A história e as estórias da ourivesaria tradicional portuguesa foram contadas no Casino Figueira, na passada segunda-feira. O fundador do Museu de Ourivesaria Tradicional Portuguesa (em Viana do Castelo), captou a atenção dos presentes transportando-os para um mundo onde a magia do ouro impera. Manuel Rodrigues Freitas, “um homem com verbo fácil e apaixonado pelo que faz”, conforme considerou o administrador do Casino Figueira, Domingos Silva, explicou à assistência as seculares ligações do fascínio e uso do ouro com a própria evolução da humanidade, enquanto “peças impregnadas de amuletismo”.

Na presença de Deus
Para os antigos incas a cor etérea do ouro era sinónimo da presença térrea do corpo de Deus. No entanto, é no povo etrusco que Rodrigues Freitas encontra “o supra-sumo da ourivesaria. Eles eram detentores de uma técnica e desenhos fabulosos, nomeadamente a técnica da granulação pura, que com eles morreu”, considerou o prelector.
Com o impelir do desenvolvimento sócio-económico, o uso do ouro relegou para segundo plano esta ligação espiritual e assumiu um papel de medidor da ostentação popular que atravessa vários estratos sociais. À porta das Igrejas, pelas ruas de aldeias e cidades, era comum ver-se homens e mulheres usando finas peças, trabalhadas com maior ou menor precisão. Era um sinal de pujança da riqueza familiar e um convite, até, ao matrimónio. Rodrigues Freitas explica que num passado não muito distante uma mulher sem ouro era apelidada de “mulher fanada, ou seja, tinha atingido o fim do escalão social”.
O guardião de inúmeras peças da ourivesaria tradicional, num discurso leve, cativante e perfeitamente perceptível, abordou ainda a delicadeza da construção de laças, brincos, custódias, carniceiras e outros adornos. Sempre enquadrando-as num contexto popular mesclado com algumas das crenças que ainda hoje vigoram num Portugal mais conservador. Com recurso a frases brejeiras, Rodrigues Freitas deixou alguns exemplos. Era comum ouvir-se “lá vai a cagona cheia de chieira com um cordão fanfarrão”. Homens e mulheres reportavam-se à jactância com que alguns mostravam uma posição social (e mesmo económico) que na verdade não tinham. Esta soberba era, também, uma forma de ganhar status numa sociedade materialista.
Ao longo de hora e meia ficaram diversos ensinamentos de conceitos, actos e expressões ainda hoje desconhecidos para muitos. Como por exemplo o porquê da expressão “perder os três vinténs” ou o uso da aliança no quarto dedo da mão esquerda. Mas Rodrigues Freitas reserva aos figueirenses novas oportunidades para escutar estas e outras estórias. De 19 a 30 de Novembro a Galeria do Casino recebe uma exposição do Museu de Ourivesaria Tradicional Portuguesa. Mais de 400 peças poderão ser visitadas das 17 à 1h00, com entrada livre.

“Roubaram-me o coração”
Literalmente, roubaram o coração a Manuel Rodrigues Freitas. Isto porque o também proprietário da Ourivesaria Freitas, em Viana do Castelo, foi alvo de um assalto que dominou as atenções de grande parte da imprensa nacional. Entre as peças subtraídas, encontrava-se um coração por si concebido.
Com duplo sentido, a frase traduz o empenho e dedicação que Rodrigues Freitas tem, ao longo da sua vida, emprestado à recolha deste espólio que poderá ser consultado através dos sites www.ouropopular.blog.com e www.museudaourivesaria.com.

Trajes tradicionais
Para acompanhar a lição, Manuel Rodrigues Freitas surgiu acompanhado por Susana Lima, uma advogada que também se dedica a este tipo de promoção da cultura popular. Vestida com um traje de mordoma vianense, Susana Lima explicou os motivos que ostentava na sua vestimenta tradicional. Pormenores que passam algo despercebidos do olhar menos atento, mas que também têm uma história e razão de ser. Por exemplo, o seu traje azul é sinónimo de ser filha única, de uma família abastada, e como tal patrocinadora das festas que acontecem nas aldeias.
Aventais, fazendas e veludos bordados a vidrilho, meias de algodão feitas à mão, saias brancas com crivo, camisa de linho, lenço de seda e um palmito (ou vela) na mão fazem parte deste quadro tradicional com forte implantação em Viana do Castelo.

Jorge Lemos
 

 

 

 

 

 

 

 

 

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